Cafeína em conta-gotas


Está cansado da pressa.

Madrugada de quinta-feira, café já frio no copo americano e um videotape de futebol na televisão. Algumas bolachas, salgadas. Há pelo menos quatro verões, sofre daquela insônia intelectual: questiona os trechos de livros que lhe foram oferecidos desde a alfabetização; pergunta-se o quão intenso é aquele curso de graduação que chegara ao final; implora pelo fim da vida enquanto receita de bolo, como se um ingrediente a mais ou a menos significasse menor projeção num futuro previsível.

O time de amarelo pressiona, vai virar o jogo. O café chega ao fim. Às bolachas, farelos para debaixo da saudade.

Decidira ter calma. Cadência. Definitivamente não foi feito para acelerar tal como os mortais que agonizam a cada noite em claro. Estabelecera metas claras, mas sentira que não quer cumprí-las. Quer saber como buscar o improvável. Tornar surpresa a própria expressão do rosto sob o espelho do amanhecer, e fazer inesquecível o mais comum crepúsculo visto da janela do trem.

Pressão dos amarelos, que parecem ter cafeína nas veias e seguem atacando noite dentro. Só levanto se for pra achar que roubou minha nostalgia.

À frente, os estudos, frios, objetivos e descartáveis do tipo fotocópia. O trabalho que se formula numa série de repetições do mesmo tema. As conversas desgastadas, de amizades que se fundem entre novas e velhas, mas penam numa cabeça sem repentinas novidades.

Contra-ataque dos de preto. O futebol é mesmo incrível. Dúvida é se meu pessimismo tem forças para deixar o campo de defesa.

Amores de complicada resolução. Era uma pessoa pouco didática. Completara vinte anos e onze meses com a certeza de acordar cada dia mais incerto com seus conceitos. Embaralhados. Do tipo de cartas que querem parecer combinadas num jogo de azar, mas saem em ordem inversa e soam como derrota premeditada.

A torcida grita e insiste. O copo clama por mais café. Eu clamo por gritos que possam ser ouvidos no mais amplo dos palcos.

Música baixa, não há motivos para comemorar. Um dia houveram? Nem punk para um rock, muito menos bossa nova pra aqueles sambinhas João Gilberto. Pesado para o reggae, talvez chegou a hora em que ele deixara que o único som seja das batidas de um coração sem ritmo.

Os amarelos venceram. A cafeína venceu, passou. Mais uma dose de paciência ou caio de pé .

Por trás das cortinas de Shakespeare (ou resposta à Natureza Cinza)

Tão distante quanto o paraíso, a natureza pura,
singela e selvagem aparece em forma de tons
de azul - céu e mar que se fundem na melhor
das simetrias deixadas pelos traços finos que
vão se encontrar no horizonte; em raios de
giz pastel verde, que nas folhas fazem os
degradês dignos de pintura em minúcias; e
ainda o brilho do amarelo do sol e areia, de pés
e cabeças sem pressa nem passadas largas
demais; só selvagem, apenas pura e singela.
A natureza omite aqueles tais tons de cinza.
Na representação da mais bela forma de
existência, de amor ou de liberdade, mesmo
que não em forma definitiva e duradoura,
mas, mesmo efêmera, existência esta que
se torna intensa e sábia no espelho da frieza
superficial das passadas largas comunais.
Como se de algum jeito uma sensibilidade
do interior de cada gota de queda d´agua
ou da epiderme de um simples animal
nativo façam luz e cor em nossas idéias e
sentidos. Que ao menos tem sentido, tenha cor.
E torne cada dia mais a natureza, ora tão
cinza, num embaralhado de tonalidades
claras, escuras, breves ou longas, mas
que sejam intensas. De punho forte e
harmonia ímpar, sensivel e sinceramente.

Natureza Cinza


Naqueles sonhos de um lugar ideal para se viver, fantasiava as mais famosas e exóticas demonstrações de vida e natureza, como se todo o mal vestisse cores neutras ou sem o brilho do mais puro verde das folhas de mata original e do mais radiante amarelo que cruza tais folhas em forma de luz de sol.

Assim, aquele aglomerado de tijolos, asfalto e concreto, das calçadas que se vê no chão e dos arranha-céus vistos onde o próprio nome já diz cortar, figuram no imaginário da mais utópica fantasia como a não-representação da liberdade, da beleza, da essência do respirar a pureza da própria existência.

E então deixa a imaginação levar a rotina para aquelas flores e espinhos tão harmônicos da mais perfeita construção natural. Do pisar no mato seco que estala e esquarteja a sinfonia dos pássaros que cantam, como se combinassem dita sintonia.

Mas acorda na sua própria vida. Real. Em vários tons de preto, sobre alguns de branco.

Naquela natureza cinza.

Que ainda espera um risco de giz pastel, um derrubado balde de tinta, um mero traço de lápis ou um capricho - o mais singelo capricho, que traga à vida mais cor.

Racionaliza

Quantos sonhos de mais pura alegria
não são antecedidos por insônia de tristeza,
doce e sóbria lembrança doentia
não vêem pesadelo na mais simples beleza.

Nostalgia singela sem tomar nota atenta
de rabiscos sem ordem e nem direção,
passado feliz que presente fomenta
raciona o amor, emociona a razão.

E assim tentou dar razão àquelas questões que não cansa de elaborar enquanto as gotas da primeira chuva de dezembro continuam a
e
....s
..c
......o
........r
.........r
.......e
...........g

..a

....r

sobre a madeira da janela do quarto abafado.

Junto d´agua, caem as lágrimas na mesa que tão se acostumou a segurar os cotovelos enquanto escrevia ou dava gargalhadas com a televisão. Mas já previa que, às terças-feiras, os versos se tornariam tão raros quanto as risadas em alto e bom som.

O ritmo passou a ter cadência.
O amor, calma.
E a chuva, pressa.

Deixe-a escorregar e seguir o caminho que preferir:
entre os vãos da janela,
a água derrama o vazio e preenche
os espaços deixados
por esta paixão.

Vinicius

'Não há com o que sonhar, a realidade é dura. Pior é que todas as formas que a imaginação busca para burlar a verdade são apenas ironias com a vida, utopias de um arrependimento que beira a nostalgia descontrolada'.

No verão cansou-se daqueles discursos que estava acostumado a fazer. "Quem os ouve?", pensava em meio ao trabalho de digitador. Queria ver as palavras escorregarem e se tornarem idéias concretas (apesar de ser fã dos teóricos). O problema é que sentia-se acorrentado naquela rotina de sono mal dormido, café mal passado, trabalho mal feito e amores mal resolvidos.

'Demtre todos os meus males, o pior ainda é o mal da felicidade. O estar feliz otimista me ilude, me faz não enxergar as mazelas e tapa todas as injustiças que cometo com minhas prioridades, e os erros que sigo a fazer tropeçar em meus sentimentos'.

A palavra é a mais nobre das riquezas. Continuava escrevendo e construindo roteiros de um crepúsculo menos dolorido. Verbos de ligação e eufemismos, seus preferidos. O que dizer do aposto, tão usado, entre aquelas vírgulas. Lia Machado, mas queria ter sido Vinicius.

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...

Repetia tal poema de Vinicius aos quatro cantos. "Ser triste é uma virtude, oras", baforou na cara de um senhor tão bêbado quanto, numa mesa da São João. "Triste é o que não ama, meu caro. Se é claro que a vida é boa e é claro que tens o amor, que faz lamentando a infindável busca da felicidade, homi?" Não teve resposta, o gelo já derretia e uma lágrima caiu sobre a cachaça quase amarela.

Mais porre, menos porre
Me limito a enxugar minha embriaguez
Vida plena de difícil garantia
Felicidade doentia
Não encontro outro vez

Irene

A liberdade era poder sentir-se presa por vontade própria, enfim, livre na própria segurança, ou ainda, otimista à autêntica agonia.

Daquele olhar de pele frágil e pensamentos tímidos restou muito pouco. Trocou a face de menina parda pela feição de uma mulher européia. Passou a ter firmeza nas palavras e confortar os sentimentos presos por algum motivo passado.

'Nada de lápis ponta fina,
ou resistência às folhas sem cor,
hoje escrevo de mais negra tinta,
adjetivo os nomes
que guardava rancor'

Duas da manhã

Muito tempo, muito.
Muito tempo de ócio.
Muito tempo reclamando da falta de tempo.
E a falta de tempo mostra que tempo falta.
Tempo falta para que deixe de faltar tempo.
É tempo.
Tempo de questionar o tempo.
Enquanto você tem tempo.
E me faz falta.
Falta.
Tanto tempo.
Tanto tempo que me falta.
Tanto tempo de você.
E tanta falta do teu tempo.
Que falta.
E faz.
Falta.

embaçado

Vejo-te em cada passo como o fundo de um copo.

Naqueles copos grandes, com bebida consistente, tipo chopp, te vejo. Copos que duram para que vá bebendo devagar, copos de final de semana. Copos que nos chamam para sentar horas e mais horas, copos, de muitos goles. Copos, largos, de degustação complexa, copos de bar, copos que estão cheios por toda a história daquela madrugada. Copos que, por tantas noites, ouviram nossas filosofias correrem por aquelas mesas de madeira.

E então nos copos do tipo requeijão, de bebida simples, copos com cerveja, sempre te vejo. Copos coloquiais, de crepúsculo de dia comercial, de cevada fria, copos que se servem de garrafas. Copos de amizade, copos de padaria, daqueles em que se brinda forte, copos de gargalhadas. Copos que, por tantas vezes, sentiram nosso carinho implícito pairar sobre o aquele ar abafado.

E te vejo nos copos americanos, de bebidas menores, mais intensas. Copos de gosto curto, e paladar ardido. Copos rápidos, copos de quem quer sugar cada gole daquela essência. Copos que me levam da realidade, copos, só copos, que escutam meus desabafos de boemia só. Copos que, por tantas batidas no balcão, lamentaram minha saudade que derretera num pequeno cubo de gelo.

Vejo-te em forma de nossas histórias em cada fundo de copo.
Da bebida que chega do garçom, que divide o litro ou que queima a garganta.
Vejo-te num copo aconchegante, cheio de doses de amor:
mesmo embaçado, com o melhor gosto teu,
doce, meu mais nobre sabor.

limpador de trilhos

Há histórias que são notoriamente fortes.

Firmes, esbanjam consistência. Têm vida própria, coragem, autonomia. Realmente há passagens que se sustentam pelo que são, pela beleza, pela trajetória incrível e espontânea, pela sinceridade com que foram construídas, pela surpresa.

E parece até fácil perceber e entender o porquê de tais causos se tornam tão inesquecíveis nas cabeças e corações que os viveram ou que deixaram de vivê-los.

E todas as estrofes, versos, prosas, imagens e sons fazem referência à tal romance.

E a certeza é que todo esse passado efêmero foi forte o bastante, feito ferrovia que aguenta a tempestade e o trem mais pesados e que corre o risco, como toda linha de trem, de enferrujar.

Algumas envelhecem de passagem de tempo natural, outras de descaso.
A nossa, ainda não sei dizer se resistirá às intempéries dessa paixão.

Mas não me importo de ser o eterno limpador de nossos trilhos.
No teu mais duro frio, mais difícil calor.
Até que possa ver passar o vagão que vai carregado.
Cheio, respirando.
A essência de nosso amor.

sem mais notas

Ó labuta, que trazes nesta segunda-feira de inverno?

Uma dose de alegria, ao menos,
algumas frases prontas de consolo rápido,
quem sabe uma mensagem de efeito,
um dia perfeito,
sem jeito!

Eu sei,
que tal segunda-feira não me trará nenhuma nota musical,
poema, inspiração,
gargalhada até descontraída,
emoção.

Eu sei,
que tal manhã demorará para passar,
tarde ainda mais demorada,
noite que penso em tudo,
em nada,
em qualquer razão infundada.

Segunda-feira, traga ao menos a sensibilidade
de tornar-se nostalgia boa,
empurra os ponteiros,
e voa,
me leva pra longe daqui,

mesmo que num outro mundo todo dia for segunda-feira,
mas que no mundo longe
esteja perto de ti.

núpcias

Me convidou para dançar mais perto,
aceitei na hora,
e fui escrevendo por alguns minutos no metrô paulistano:

"de pele morena me chama a atenção,
desfila, não anda, frente a mim
e me encanta,
e canta,
até o fim...,"

E S T A Ç Ã O R E P Ú B L I C A E S T A Ç Ã O R E P Ú B L I C A E S T A Ç Ã O R E P Ú B L I C A E S T A Ç Ã O R E P Ú B L I C A E S T A Ç Ã O R E P Ú B L I C A E S T A Ç Ã O R E P Ú B L I C A E S T A Ç Ã O R E

(Feito o trem que corre com seus rostos, letreiros,
sonhos, caras, encontros e despedidas),
fechei o bloco e coloquei no bolso de pano,
andei pelas travessas inacabadas do centro
esperei-a em silêncio e copos de cerveja,
coração que pulsa forte,
lateja,
com a surpresa de um primeiro olhar,
da paixão de uma noite de núpcias
à simplicidade de um bar:

"olá!"

Era o início do fim dos meus dias.

míope

Ao velho samba, os discos
às velhas sensações, a nostalgia
à rotina, uma dose de reflexões em pleno horário comercial, enquanto o sol cinza, quadrado, queima sobre minhas costas míopes
sim, míopes
como se não conseguissem assistir, de longe, todo esse passado, curto
que ficou para trás,
mas que tento carregar de algum lado,
das costas
ou do peito
que, também míope,
não pôde ver que todo aquele clímax chegara ao fim,
mas que não deixara de justificar os meios,
e fazer valer cada noite,
desde o começo,
tão vago quanto intenso,
romântico quanto contemporâneo,
simples, bonito.

À história,
essa sim, assistira com perfeição meu coração,
mas que,
míope,
não consegue pulsar mais de vinte e cinco quilômetros de ti.

Rejeito os remédios,
qualquer medida que me faça vê-la tão longe,
prefiro,
espero cego,
você perto.

Para te ver num singelo abraço ao som daquela noite de sábado.
"Sem par também dá pra dançar,
não sei porém,
todos os passos,
perco o compasso".

la vida después de usted - passional reciente

No sé lo que tenía derecho
Mas tenho certeza que soubera de tudo

Ha tomado la brisa que sopló del norte
Como se o vento calmo fosse feito para nós

Regalo intenso, pasado incierto
Futuro que chega sem tanto mistério

Que bate en nuestro pecho fuerte
Como se formássemos uma só rítmica de amor

o tempo que tudo é pouco

Dias primeiros costumam ser os primeiros dias.
Desde abril, de mentira.
De maio, do primeiro frio compartilhado.
Ou de junho, muito mais gelado, porém não menos quente.
Como se a folha que cai do calendário tivesse o mérito de fazer da noite especial.
Ou se apenas fosse a metáfora de uma real folha que cai ou nasce em alguma parte de mim.
Feito as que caíram no último outono.
Ou que nascem já esperando a primavera próxima.
Enquanto isso, trocamos as mãos no inverno.
Sob o termômetro dos onze graus:
um beijo.
Doce.
De frio, de calor, de razão, de amor.
Mas doce.

seus amores, seus vícios

Olhou para o espelho e viu aquele rosto nu: indagava-se sobre o que escondem os olhos de menino e tais pálpebras calejadas, a boca seca do conhaque em dia útil, os sinais de mais um resfriado de outono, as marcas de espinhas adolescentes, a velha camisa do time do coração que tornara-se roupa de dormir com qualquer cueca velha, o rádio no pé da cama - anda tão desligado, os livros encalhados com seus inúmeros marcadores de página sem memória, uma muralha da china de revistas e jornais que guardara por considerá-los relevantes - para quando?, as caixas dos cds obsoletos, os pôsteres de futebol, qualquer revista de partitura reggae e a caixinha de relógio que virou cofre para os trocos do salário.

Olhou para o espelho e viu muito mais que a metáfora daquele rosto que assiste há tempos: questionava a dificuldade em ser entendido, em explicar seus amores, seus vícios, sua vontade incondicional em abraçar e salvar o mundo, em trabalhar por conta própria, em dedicar o tempo àquela paixão platônica e à leitura das crônicas de Vinicius - aquele sim, me ajudara a explicar para viver um grande amor, em fazer o bem, rir, gargalhar da mais bem feita ironia ou do mais cruel sarcasmo, questionava o prazer em ser aquela mudança constante, de uma simplicidade até caipira e de uma carência juvenil.

Olhou para o espelho e viu uma mistura de dúvida e instabilidade, uma parte amor outra razão, ora que se entrega à vulnerabilidade ora que se apóia em certezas de sexta-feira. Olhou para o espelho com a vontade de nunca mais encarar aquele reflexo desfocado, de olhar sem direção e sorrisos com gosto de lágrimas.

Tirou o espelho da sala, ligou para ela e contou a mais bonita história de amor que lembrara. "É meu vício", consolava-se.

sobre o baixo mais grave

Acabara de completar vinte e dormira pouco.

Favorável aos reggaes amadores in loco e copos de plástico, lamentara o fato de que o amadurecimento musical quase nunca segue as tendências. Quem dera entendesse se aqueles metais soprados em seus ouvidos eram fruto de alguma negligência instrumental de qualquer canto da América (baixistas de Trinidad e Tobago, Vila Isabel ou Rudge Ramos).

Facilmente era convencido que um guitarrista solo do Nordeste ou aquele trio roots do Norte traziam-lhe uma harmonia incrível para a cabeça. Trabalhara por meses e mais meses revesando os discos no computador, como se fossem antídotos para aquele pacote de informações sem tom nem distorção. De remédios vindo de garagens paulistas até os grandes estúdios da Califórnia, todos buscando um equilíbrio em forma de som.

A leveza das cordas e do sopro fizeram com que a sensibilidade se tornasse única. A tranquilidade levara às nuvens, em forma de pequenas sensações momentâneas e ímpares. A batida da percussão no peito que sente frio esquenta, como se toda aquela canção desejasse compartilhar o ritmo com o de cada coração sem paixão definida.

A positividade da cabeça, a liberdade aos pés e um toque de mãos são naturais. Um abraço nos seis minutos e meio de dub podem ser questão de tempo, dissera ao esperar a entrada do trompete. Um beijo leve e inesquecível no refrão que clama o amor, vindo do palco improvisado no canto do salão.

luz de portugal

pare ao meu lado e deite sobre meu ombro
feche os vidros, eles fazem voar seus cabelos
deixe a música no volume que lhe agrada
estacione o mundo dali em diante
respire ofegante
pense em nada.

esquece por um tempo assuntos debatidos
releve as idéias pressionadas em seu pensamento
faz de nossa vida um sonho, em Portugal
beije nossos cheiros
sinta nossos beijos
tão real-passional.

intensifique nossos minutos de amor
dê gargalhadas de nossas histórias
conte-me sua dúvida, seu sim, seus nãos
cante o refrão do reggae
e me carregue
nas mãos.

a mentira é minha

por muito tempo tentei provar que um factóide qualquer se tornava literatura, ou que aqueles sábados que fingia sair sem rumo eram todos seus. hoje, me declaro num gelo que sobe no copo americano ou numa pinga servida num plástico de metro. meus porres de amor são tão meus, deixe-me enganar toda minha rotina de novo, fingir que os cotovelos no balcão são opção, não necessidade, e que o troco pouco me importa enquanto conto as moedas escondido.

não me convide para compartilhar dessas idéias sem fundamento. me exclua desta vida real, quero viver a minha de mentira, com meu itinerário alheio ao palco principal e aos olhares intimistas. quero ir embora sem deixar vestígios, ouvindo o Mato Seco no volume que dribla os vidros do carro emprestado. "A resistência". A minha, a de quem? Volto a escrever um embaralhado de líricos em página, feito aquele velho reggae do meu obsoleto walkman ou os pôsteres do time do coração.

cansei das tuas verdades. a fantasia me faz tão bem. prefiro sonhar em hollywood colorido que seguir com esse filme mudo-preto-e-branco.

a fim de voltar

colocou a cabeça no travesseiro, desligou e Tim Maia e olhou para o teto com nítida certeza: está apaixonado.

o frio na barriga vem a cada aparição dela. seja numa mensagem eletrônica ou na voz pelo telefone. sente uma harmonia única, uma paixão platônica se tornando cada vez mais realidade. o Pedro resolveu que a hora é dela, a noite é dela, o abrir dos olhos é dela. Passional ao extremo, exageradamente romântico, faz de tudo para que a simetria siga na mais perfeita sensação que há entre eles. Ela mexe com Pedro. "Você mexe comigo".

"tento me segurar, mas não deixo de pensar em ti"
"queria olhar nos seus olhos"

já não consegue trabalhar. o dia demora, quer logo vê-la. um paradoxo entre manter esse sentimento de vontande descontrolada de tê-la e a intenção de que passe logo esse filme que tem de chegar ao final feliz. vira pro lado da parede, pro chão, liga a tv. aquele sorriso, os cabelos nos ombros. o simples toque de mãos, uma gargalhada que fita a boca. Pedro quer viver para aquele carinho ímpar, uma sensibilidade e uma leveza que nunca sentira antes.

''porra, mas como assim, Pedro?"

ele não consegue me explicar. fala que não se lembra de ter perdido o sono por alguém. que daquela vez era tudo muito natural, bom, saudável. que sentia uma necessidade grande de manter o contato com ela, da maneira que fosse. para que o sonho que começou a se tornar realidade ficasse cada vez mais próximo daquele travesseiro velho.

''estou aqui, sempre''

sabemos disso, Pedro.

mármore velho

O Pedro gosta de sentar em bancos junto ao balcão. Sente-se firme com os antebraços apoiados no mármore, firma o copo na mão direita enquanto a esquerda articula, ao vento, alguma tese política infundada. "Tenho afinidade com a corrente esquerdista dessa nova postura latino-americana, mas não me apego ao macro. Política para mim é sentar no balcão da esquina...", Pedro tem aversão aos amontoados de mesas de ferro, daquelas que, de costume, colocam-se quatro cadeiras, juntam duas para que se sentem seis ou várias para um bando.

Aquela coisa de sentar ao balcão com dois amigos era muito mais fantástico. Pedro sempre tentou me convencer que, naqueles bancos fixos de beira de balcão, o cara que senta no meio sempre terá a melhor história da noite. Sei lá, baita viagem, mas comecei a perceber e me parece uma teoria real. O Pedro, já pressentindo juntar ficção com a meia realidade de suas mentiras de sempre, sentou no único dos bancos disponíveis. Como que de maneira predestinada, levantam-se os dois ébrios do recinto: à esquerda senta-se Freitas, à direita, Dênis.

As mulheres estão na mesa, claro. A pouca experiência que temos nos leva a perceber que, em botecos frequentados por Pedro, Freitas e Dênis, as mulheres, das duas, uma: ou passam por menos de um minuto - ida ao banheiro, sempre acompanhada, e dose de bebida quente com dinheiro trocado, ou sentam à mesa, querendo mostrar naturalidade naquela troca de olhares manjada, com regulares desvios ao cine-corujão que já chega à parte final. Mulheres no balcão, coisa rara.

E aquele trio, esses sim eu conheço de longa data. Não me lembro de grandes sucessos em abordagens do tipo balcão-mesa, eles são bons é de copo. Não que isso seja demérito, mas é tão engraçado esse paradoxo entre a solidão dos bebedores de balcão e a carência de uma mulher. Não consigo pensar se aqueles três têm uma paixão de verdade, ou se conseguem escrever cartas de amor, eu vejo sim três jornalistas que gostam de álcool, sexo e futebol, não sei se nessa ordem, acho até que não. Mais uma vez (puta que pariu, o Pedro não pode ler isso) não considero vaga essa trinca de prioridades, pelo contrário, felizes aqueles que as têm (quero ver o Pedro negar).

Mal conversamos sobre isso, mas sinto no Pedro um tesão incontrolável por essa rotina. Sim, o Pedro vai conhecer a mãe dos seus filhos (fodidos!) numa dessas, vai conhecer uma parada que seja tão fã da cevada, de cana e de trepada. Sim, o Pedro eu me arrisco a dizer que ainda é um cara muito, digamos, sei lá, frio. Frio não, ele me parece quente até demais, o cara queima, soa vitalidade. Mas não deve pulsar por uma mulher de meia-idade, nem uma menina da distante faculdade de comunicação, o Pedro é só. Mas ele gosta disso, ele é um isolado tão bem acompanhando, um filha da puta que de mais solitário tem a presença daquelas mãos e copos e vestidos e calças baixas, geralmente de blusa preta e algum afinidade com o rock de garagem.

Mas ontem o Pedro mudou. Ainda não consegui entender se é a mudança de casa, a labuta que mal paga o amarrotado da camisa ou algum rancor familiar novo, mas o Pedro mudou. O velho não é mais visto nas mesmas ruas de sempre, com aquele carro velho nas esquinas da Augusta e alguns contos mal escritos. Pedro tem exagerado nas vírgulas, enquanto isso, se apóia num balcão que parece não resistir. E ceder, feito mármore velho.

outono ou nada

o verão está para acabar.

nesses últimos minutos, Pedro lembra de uma estação que viveu de amores gelados, bancos com suor e cansaço. calor sim, muito calor, algumas mudanças. tais mutações fizeram a estação ser realmente a de temperatura mais alta.

daquele vinte e poucos de dezembro até aqui, Pedro dormiu na rua e no motel mais caro. viu o Dylan e o Mato Seco, começou a reler Machado de Assis e arrumou a bicicleta. não, não casou, Pedro ainda é um cara difícil. "Penso que nem eu sei mais o que pensar de minhas reações", cala-se Pedro. a naturalidade desse paulistano de cara neo-esquerdista é uma virtude tão defeituosa, "mas preciso me explicar a cada dia", chora, Pedro.

o outono promete dias melhores, "piores", falaria o filha-da-puta. meu otimismo me faz prever um sábado melhor a cada sexta, não importa o tamanho do desgosto daquele gole de madrugada. ponho a cabeça no travesseiro e olho para o teto: caralho, o verão já foi. não resolvi minhas paixões, mal arrumei a cama e ainda calo às indagações dela. as velhas roupas íntimas, desculpas de sempre, mentiras de nunca. o Pedro fica lá, feito uma goteira de lágrimas na escrivaninha do bloquinho sem espiral, haja preguiça. a Ana não quer mais nada.

e o teto não me responde o porquê da ficção ter se tornardo tão real nesse verão. horas e mais horas de recorde de trânsito, de confusos paradoxos que se entrelaçam nesta cabeça. a augusta ficou longe, aquele amor de dias de semana parece ter se perdido nas mesas da esquina, assim como apareceu.

reclamo a indiferença de meus olhares sem nexo; grito à quarta-feira nostálgica.

não sei se espero o próximo verão ou lamento o fim deste. por mais que tenha sido, outono ou nada.

Monossilábico

Desde o tempo que resolvi me dedicar às letras, aguardo uma resposta tua.

Por enquanto tem me levado, há anos, com respostas de advérbios de negação monossilábicos, NÃO. Negativo ao sonho da viagem a Viena, do casamento na prainha branca ou de uma coleção de discos do Tim Maia. Tudo bem que me contento àqueles beijos no carro parado em frente à garangem do Ademir e teu sonho em ver bandas da moda em apresentações gratuitas no parque central. Quero ouvir Acenda o Farol no volume vinte e seis, com as caixas do volks prata vibrando a cada grave do soul verde-amarelo, e tua boca se misturando com meu suor de quinta-feira (desligue o telefone), puta que o pariu, sexta cedo.

A praça segue lá: feita de árvores densas, não traz gente caminhando, mas sim amores perdidos do outono passado. A estação está para chegar, as nuvens dão o cartão de visita e nada de oração positiva tua. Me apeguei ao jeito que você nega minhas investidas, sou um grande filho da puta de inocência maior.

Procuro um médico. O maior dos de sapato branco sugere uma receita à base de ti. Imploro pela vacina, pela injeção, pelo genérico. Me deparo com sonhos, apertos e saudades das mais intensas formas de você.

O porquê de não desistir chega em força racional. Meio passional, com doses de coragem esporádicas, te amo sim, feito filme que pede pipoca e o anti-herói chora a falta do amor. Estou te esperando ao fim da linha, nunca fora leitora de minhas letras em detalhes, troco-as por um abraço que apague essas linhas tortas. Vem?

cedo

o rádio-relógio desperta alto pra caralho (até que eu baixe) e pega uma fala do Zé Paulo no Pulo do Gato, 'a Prefeitura alterou a mão da rua do estacionamento do shopping Santa Cruz, entre as ru...', me preparo para o meu mundo, onde tudo é tão mais simples: escovada nos dentes, lentes míopes nos olhos e a primeira camiseta não-futebolística (ou mais ou menos isso) no corpo.

O Zé chama o Milton Neves, atraso sessenta segundos para ouvir uma bobeira esportiva. e então ligo meu próprio rádio, mal sintonizado, sem muitos ouvintes, mas com uma programação particular - uma piada pra contar, uma garota de ipanema pra sonhar ou um sonho a ver de fato.
até a redação são dez minutos, meia dúzia de semáforos religiosamente vermelhos.

o horário é menos comercial que o usual, até que me sinto bem. embaralhado de idéias mal terminadas e outras bem começadas, notícias jogadas ao vento eletrônico e pautas e mais pautas em forma de bloco de notas. no meio tempo me pego pensando nas minha mania de não pensar em nada, olhar fixamente prum ponto e questionar minhas razões de estar ali. auto-crítica constante, mútua, com um eu mesmo que está não sei bem onde.

até o campus, mais uma meia-hora de rádio bandeirantes, o vento já não sopra o cabelo que tratei de aparar. sofro de excessiva nostalgia crônica, e já me recordo do romântico passo anterior como se tivesse sido o último. preciso viver de agora, vinte e seis minutos de mais uma terça amena, novidades poucas, muita água e um comprimido que me faça gritar em overdose de coragem.

bússola

explico que não desejo mais um suor a cada sexta-feira, cansei de loucuras em copos americanos, sair sem hora pra voltar, não planejar os bilhetes, nem o itinerário, nem se chego pro café ou pro jantar. é, a insistência pela não repetição dos fatos se tornou tão rotineira quanto, me sinto tão mais do mesmo, como naquela noite em que deitamos após o gozo e rimos sem parar [isso já dura ao menos inúmeras vezes]. sinto que é hora de tomar o caminho de casa, voltar aos costumes tradicionais e dar menos mérito à displiscência. posso ser mais algumas vezes aquela pessoa sem referências nem pontos cardeais.

desde que meu norte seja ti.

próxima estação

o pedro era um cara difícil, ainda. largou os bilhetes de metrô, mas ainda mantinha o medo constante de se apaixonar a cada estação. a inquietação era abafada por um azar insuperável com as mulheres: pedro era piada famosa entre vizinhos e colegas de sala. certa vez, foi enganado de forma que acabou viajando e levando um bolo em outro estado, sem contar as inúmeras investidas em casadas de meia-idade que gargalhavam de sua cara cheia de espinhas.


até que nas vésperas de um dos carnavais mais quentes de que ele teve notícia, a sorte apareceu para pedro. ele sentia-se bem, mesmo com o mesmo cabelo, quase tapando o mesmo par de olhos claros-calejados mesmo, mesmo sem roupas novas ou barba mais bem feita - pedro tinha aversão a cremes para o rosto.


incrível como pedro, após ler um qualquer escrever fazendo amizades de bancadas de balcão, com o gole do copo gelado esperando o gole do corpo quente embassar todas as minhas vidraças, começou a crer na idéia. largava o banco pontualmente às dezesseis, pegava o sem carona e corria pro centro de são paulo. chegava lá ainda sol e sempre se arrependia, muito calor, bom para a bebida gelada, ruim para o suor junto à bancada.


numa sexta dessas, parou na frei caneca e desceu a augusta, passou pelas padarias cheias de pessoas tão igualmente diferentes e riu daquela uniformidade ímpar. entrou num clube qualquer (não confunda com um prostíbulo, famosos naquela região). conheceu uma menina de sobrenome famoso. meio rock alternativo, morena de pele branca e macia.

- olá.
- oi, como vai?
- sempre falta companhia pras pessoas que aguardam na fila do banheiro...
- pois é. [pausa sem pauta]
- vamos pegar uma cerveja...

a conversa durou ainda horas, o pedro não contou com detalhes. talvez ele ainda não esteja a vontade para falar disso comigo, afinal, como disse, mulher nunca foi o forte do pedrão. mas incrível, o cara parou de reclamar do banco e começou a se dar bem. com a Ana, o papo da fila pra mijar rendeu uma pegada das boas num canto da música eletrônica, drum n'bass num volume que ele reclamou por toda a fila do caixa de segunda-feira.

- porra, ressaca de segunda-feira pós-festas é foda, banco lotado do caralho.

falou por um bom tempo dela. sai com ela até hoje, tem um carinho que nunca vi o pedrão ter por uma fêmea. sim, ele sempre tratou o sexo oposto assim, na maré ruim. até que lembrou de uma sexta anterior. entrou, com três camaradas e mais eu, num barzinho legal daquelas bandas. tocou um samba antigo, como sempre, pedro ficou pra trás na corrida pelas mulheres de uma noite só. mas aí ele olhou, ela olhou, mexeu (- caralho, to aprendendo!) e rolou uma conversa, de início ainda mais louco que a anterior. meio jazz, de jeito suave e dançante.

- pedro.
- liana.
- curte o que?
- quem?
- vamos pegar uma cerveja...

Disse ter passado uns quarenta minutos explicando vida e obra de algum artista, ela ouvindo com atenção. tinha um olhar de menina, dizia querer ser dentista, fazer intercâmbio. como um eduardo e mônica, pedro gostava de novela e jogava futebol de botão com seu avô... liana, mesmo sendo linda, acabou não vingando, no fim parece que nem de dentista ela gostava.

- porra, quando eu penso que vai dar certo, a mina deu o telefone e sumiu...

pensamos que tinha acabado, e lá vinha o pedro com história. agora disse que tava numa festa carioca com uns amigos da faculdade, e tentou, com o mesmo papinho, testar a sorte. meio ska, punk, rápida e intensa.

- já vai?
- tava esperando tu me chamar.
- vamos pegar uma cerveja...

caralho, que fase em pedro, porra. subiu as escadas com a piranha, foi pro canto escuro, ele bêbado, ela mais ainda, e que foi aquilo.

- porra, se eu contar vocês não acreditam...
- fala, filho da puta, tá começando agora e quer botar banca...

ela abriu o zíper, ele tirou o cinto. (puta que pariu, aqui!?) Pedro só viu quando os carinhos já eram mais intensos, o tesão incrível, a música não chegava mais nos ouvidos com nitidez, os olhos brancos, as pessoas todas estáticas, ele, ela, ele, ela.

- foi bom te conhecer.
- prazer é meu, srta...
- larissa.
- feliz ano novo, larissa.
- pra ti também.

puta que pariu, a galera foi a loucura, o pedro tava representando naquela noite. pediu mais duas heineken e minha porção favorita de amendoins, a mista - verdes, laranjas e tradicionais.

- lembram daquela do trampo...

risadas e mais risadas. tá, ele não tinha porque mentir, mas do nada, assim, em tão pouco tempo (lembro de ter visto o pedro pouco antes do natal) ele teria tantas histórias, e boas, assim? começou contar que marcou de tomar uma gelada numa noite dessas. Ela, linda, encantadora. meio beatles, meio bossa nova.

- que noite linda.
- gostou?
- muito né.
- gabriela.
- pedro.

realmente ele tinha mudado, impressionante a capacidade que estava de lidar com as situações. tinha se tornado um ídolo da galera, mais três geladas, quando, mais pra lá que pra mesa que sentávamos, remeteu ao amor do colégio.

- ah, a amanda...

tinha saído com ela dias atrás, como naquelas fugas que eles faziam para ouvir reggae, fumar maconha e tomar vinho, muito vinho. diz ser sempre tão bom, tão espontâneo, saudável. meio bob marley, harmoniosa e tão próxima.

- te amo.
- também te amo.

boquiabertos. era quase carnaval e realmente, mais três geladas, ele não podia chegar pro pedro. era bom ver o velho amigo assim, feliz, contente, mas algo parecia estranho. o pedro das histórias não era o pedro das histórias, aquele cara quase-sem-espinhas que largou o estágio em comunicação pro emprego no banco. ganhando mais e se fudendo mais, mas porra, ele é batalhador, gente boa. tudo bem que mulher é fase, como já dizia a velha canção, mas ele tinha encanado com isso, não sei, mudou ele de alguma forma. mais três geladas, gritaram, pedi meu duelo, chamei-o num canto para dividir o amendoim e comecei a entender o que havia acontecido.

- meu carro quebrou.

continuava a ter medo de se apaixonar a cada estação.

de vidro

corpos quentes - copos gelados - embaçam feitos de vidro.

do ABC ao Centro - ambos do Lado B - são tantos vinte e cinco quilômetros, uns três litros de combustível prum um ponto oito. do Anchieta ao Frei Caneca, o vento na cara sopra João Gilberto e Ponto de Equilíbrio, deixa de saudade pras lombadas de reflexão, árvore do reggae pros arranques de quinta marcha.toda sexta sempre igual: fazendo amizades de bancadas de balcão, com o gole do copo gelado esperando o gole do corpo quente embassar todas as minhas vidraças.

nota consoante; estribilho vocal

nos embalos da madrugada, de maneira tão semelhante. a balada dos teclados, de computador ou de bandas de dub, no toque cadenciado de escritores ou músicos anônimos, que escrevem e tocam num mesmo compasso. se a noite dele é o sábado, me contento com esse início de terça silenciosa, onde moscas cantam mais alto na disputa pela preferência de minha atenção com os clipes de animação estadunidense. você, tecladista, tem teu grupo, eu tenho uma música eletrônica de motor de geladeira, um solo de ronco do quarto ao lado e uma base de baixo do arranhar da cama que se mexe durante a noite. minha banda toca em silêncio, com palavras tão sutis quanto PESADAS. se teu clímax é mais uma distorção de guitarra, o meu é um recurso de caps lock. deixa o teu refrão terminar, que páro de repetir vírgulas em sequência.

se não tenho o carisma do vocalista, deixe ao menos que os livros me assitam, quietos. se os dicionários de minha mesa não tem o mesmo coro dos teus fãs de beira de palco, deixa que aprendam minhas rimas, pobres, ricas, sem base acústica. siga tua playlist que eu continuo na minha ordem sem métrica, e, em caso de bis, lembre que meu corretor gramatical pode também interferir na sequência e na chegada do ponto final. Teu disco é meu livro de canções não musicadas, letras sem cunho vocal ou instrumental, acordes sem harmonia nem versos de final fácil. se tua estrofe de quatro linhas e quarenta toques te contenta, deixo minha prosa me levar pelos dedos e idéias, como num desabafo de cantor de rock. sou meu próprio líder, sem vaidades nem briga por lugares no camarim.

termina teu show, se anima com teus fãs de boteco anônimo, enquanto reis e rainhas desfilam na tv. eu sigo como mero escritor desconhecido, meio digitador meio repórter, na insistente busca pela arte. no saxofone, quina da porta sem óleo. na flauta, desodorante aerosol. no backing vocal, ctrl c + ctrl v.

geração bolso

A memória contemporânea.

O dela guarda o batom, o registro geral, umas notas avulsas para o flanelinha e o cartão de crédito. No traseiro a aliança de casamento, um anticoncepcional e umas aspirinas, em meio às entradas para o cinema. O dele tem a carteira, socada, e umas moedas do troco do estacionamento. Ainda houve espaço para aquele trevo de quatro folhas, o celular sem bateria e as chaves do carro, de casa.

Me lembro que num passado nem tão distante, tinha medo deles. Tão inseguros, será que resistem ao peso de carregar o mês de trabalho, o número dela ou a senha do banco? O quão responsável são esses de jeans, caros ou de brechó, aqueles de moletom, fundos, de pano, ou então os de bermuda, caídos, leves, eu nunca saberei. O que dizer então da minissaia, tão pequena, tão sensível, tão cheia deles...

Fato é que são companheiros inseparáveis do consumista egocêntrico do novo século. Os repositórios ganharam vida e design - ora são tradicionais ora tão invertidos, traçados, do avesso. Tudo que toma poder ganha glamour, arte, estilo, e não foi diferente com eles.

São retratos da segregação pela qual sempre passou a terra brasilis, tão cheios, tão vazios. São amigos de seus homens, mas traem. São parceiros de trabalho, de estudo, de botequim, mas podem se tornar inimigos. São saudáveis, mas causam dependência.

O que você já fez com o seu hoje?

corre

a frase pronta da vez é que o tempo está passando muito rápido já é outubro e o jeito é correr bastante afinal o brasil pode precisar do suor de teus braços e dos calos de teus pés e se você parar para pensar pode ser que caia da roda gigante e fique aí tido como vagabundo moderno já que nesse brasil que quer crescer não há espaço para artistas nem para caminhos alternativos só reconhecem os horários comerciais de escritórios abafados e estamos nessa ainda não encontramos uma maneira de sair embora haja muitos planos e tenho esperança de que se tornem realidade mas por enquanto estou correndo muito também não consegui ser diferente de ninguém imaginem se o brasil descobre que fico escrevendo essas horas puta que o pariu vou correr tem gente chegando talvez nao de tempo de editar nem terminar e muito menos colocar o ponto fi

aspirinas

aspirinas podem ser o ópio do final da semana, sejam aquelas servidas em copos americanos, sejam as misturadas com uísque ou refrigerante de cola, sejam as tragadas em guardanapos daquelas televisõeszinhas de bar ou em sedas profissionais, sejam as cheiradas em carreiras de notas de vinte, sejam as injetadas em seringas de plástico, sejam as tomadas feito remédio de dor de cabeça.

as dores de cabeça são inexplicáveis, a fuga dela, nem tanto.

dores de trabalho, tão resistentes às aspirinas de farmácia. dores de estudo, feito as de trabalho, um pouco mais acessíveis às aspirinas genéricas. dores de amor, essas sim, sem cura acessível, nem tubos de ensaio, muito menos vendidos em cartelas ou vidros de bula branca com letra pequena, preta, e de compreensão tão difícil quanto à doença sem medicação, a maior de todas.
aos sintomas que tua ausência causam em mim, me automedico sem recomendação.

aspirinas.

sabe?

Penso nos meus dias longe de você, tão tristes quanto longos, mas ainda bem que hoje você veio comigo. Sei lá, estamos juntos, separados, o que importa é que estamos. Triste é o gosto do meu beijo sem o teu, a minha presença inútil sem ser metade tua. Não consigo imaginar que outro rumo poderia ter tomado minha rotina, agora é fácil de olhar o pretérito. Misturam-se as cores nossas, olhares, sentidos. Rimos ao falar sério e sorrimos às adversidades, mundo tão gigante, passos tão desritmados. Tantas paixões para se apegar, tantos lábios para me viciar, mas que encontro mais nós dois poderíamos imaginar?

Tempo, passa o tempo, clima de suspense, de surpresas premeditadas, de falsas espontaneidades. Combinamos sem combinar, não temos hora para ligar, nem conceituamos apelidos mútuos, nada. Viagens de um subconsciente infantil, de máscaras e personagens em constante metamorfose.

Criamos uma saudade tão intensa quanto a ânsia de vê-la passar, naquele abraço forte ou no chamado de longe. Ah, essa menina, tão indiferente, tão difícil, mas quem me perguntou se sinto vontade de entender? Olhos, esperem fechados, o fim está longe, sento e me apóio nesse bloco de notas rabiscado com esse amor que não é de estação nem de férias, é de momento duradouro e longo.

Sabe-se lá se um dia, ah, essa menina.

poema sobre a labuta

definitivamente o perfeito paradoxo
trabalho e poesia, tão próximos
tão distantes.

o suor frio e cansativo, o salário
a arte espontânea e livre, o prazer
à vontade ler, rabiscar, no horário
a submissão diária, o escrever

a artificialidade das ações, a agenda
a naturalidade dos versos, ritmados
a intensa labuta dos poemas, horrenda
a relevância mais do mesmo, grafados

a relação de água e vinho que estabeleço entre minha vida e minha vida. minha vida de verdade, minha vida de mentira, numa alternância de adjetivos. faço estrofe meus trabalhos em rimas pobres ou ricas, enquanto trabalho meus poemas em serviços de terça-feira. horário comercial dedicado aos estribilhos dos dezenove anos, momentos livres de fuga, concentro-me em reuniões e tarefas. um verdadeiro profissional de pontos, sílabas e palavras, um estagiário de dores e emoções amadoras. me confundo no romantismo das gravatas e na formalidade dos folhetins, ou o contrário.

rancor

Deixe-me viver, imploro, em paz
feche os livros velhos que te enjoam
que te secam a garganta.

Foda teus planos, todos, cada um
deixe-os morrer num ostracismo
como se nunca existira antes.

Rasgue meus versos, estes, feitos à você
mas com rancor à altura
são palavras pesadas.

inverno

como as flores que no último outono caíram
meu amor não resistira ao inverno
feito galho novo folhas novas surgiram
e do presente coube a culpa vago eterno

e da culpa fez-se o choro tão intenso
como ribeirão que desafoga vossas mágoas
amor meu, chance minha te compenso
em forma breve que reflita nestas águas.

águas de julho, mas que soam para sempre
têmporas tristes visse um dia primavera

águas de julho, contemplei-as lentamente
como terras de surgimento em nova era

salva de palmas ao errôneo mais-que-perfeito
salva, as almas, de que tu tenhas direito
e cubra-te, ao inverno, um momento

receita

À você, uma porção de tristeza, das grandes,
para que possa degustar com tua dose de rancor.
À mim, um pedaço de consolo, daqueles de inverno,
para que esqueça junto com meus goles de calor.

À nós, dois, dois porres de distância, caprichados,
para que brindemos esse saudade e dor.
E pedaços de bolo bem amargo, recheados,
com o gosto da essência que restou de nosso amor.

viena

eu te amo quem dera porque amo
embora queira-te, sabe se quero
viver por ti é minha vida como lhe vivo
espero-te sempre, valer minha espera

faço de minhas estrofes tuas
como se formássemos um só verso

faço de nossos versos um
como se formássemos um só amor

e que num fim de estribrilho
o sol desafogue mágoas minhas
e apague o que restou destas linhas

e que num final sem ponto
amo-te de conto em conto
ou desafogue aqui:
pra não soar a distância infinita
do eu-lírico
e ti.

sensíveis

Sensíveis são as pessoas de saudade rápida. Ele não suportava mais a distância, no longo mês de julho que garoava em todos os dias que ele queria sair enquanto o sol brilhava intensamente naquele escritório abafado. Ela, linda e longe, se limitava a aparecer em cartas de poucas palavras. Ele tinha se entregado de corpo e alma, nunca amara antes, logo aos 17. Ela, de dezembro. Ele leu num livro que nessa época nascem pessoas para as quais os horizontes, perspectivas e amplitude são fatores priorizados pela consciência de Sagitário, que sabe determinar com clareza as metas de sua jornada. Sim, ela tinha uma baita jornada dessas, mesmo ele não acreditando nos signos. Ela voltaria no fim do ano, perto dos 21. Ele passara no vestibular, tamanha a ansiedade de encontrá-la adulto. Durante a viagem, ela escrevera contos e poemas mas nunca os enviara, sempre com a desculpa (soava como descaso) de que a timidez a impedia de mandá-los. Ele, pelo contrário, apoiava-se no seu gosto preferido - o de relatar seus sentimentos em contos e poemas simples - e frequentava os correios com mais frequência. Hoje é janeiro, o retorno foi adiado, e o telefone já não toca na imaginação dele. Ela parece não voltar mais, ele chora. Quem sabe ele, na verdade, mal tenha existido para ela? Ela ainda vive, ele se suicída a cada dia sem um sinal de vida. Ele se perdeu por meio de todos, gastou tudo numa passagem sem volta para o Chile, atrás dela. Não a encontrou em todo o continente. Ficou com o caminho de Santiago, enquanto ela, sem avisar, retornava, sonhava chegar de surpresa. Desesperado, desesperada. Ele parece não voltar mais, ela chora. Sensíveis são as pessoas de saudade rápida, digo, de amor distante.

só mais um registro

demora para sair enquanto curte aquela ansiedade única, um erro a mais pode culminar em uma cerveja a menos. despede dos arranha-céus, as próximas noites prometem ser rudimentares, nômades. esquece das regras urbanas, a grama também pode ser um bom abrigo. assovia a melodia daquele cântico que não sai da ponta da língua. grita, com força, aquele refrão que explode a garganta. suja todos os pés descalços, não há tempo para pensar em sapatos. derruba, em meio às barracas, todo o peso que tem nas costas. cumprimente, um a um, todos os seguidores dessa vibração anual. cuspa, pesado, aquela porção de cansaço e trabalho engasgado. beba, muito, toda essa alegria fantasiada em copos e latas. lança, o perfume, teu cheiro cai bem com a brisa do interior. curta, de maneira intensa, cada segundo desse ponteiro em ritmo cadenciado. troque aquela convenção de dia e noite. tente, ou ao menos finja, ser invencível às contradições. balance a bandeira com firmeza, uma massa rende-se a ela. bole uma piada nova para cada escorregão anônimo, dechave essa espontaneidade tão bonita e trague mais, muito mais, alegria. deixe que os brindes às amizades sejam exagerados. escancare teus sentidos. faça questão de que todos percebam teu elo tão distante. perca as perspectivas e não se importe com mais nada. peça um abraço apertado, ela ei de compartilhar. ria, puta que pariu, dê muita risada, te vejo pelo teu sorriso. ame, sinta a vibração do momento e não tema o futuro: ele não passa de só mais um registro.

banalização do niilismo moderno

Começo pelo final: sim, esse foi um discurso bem vazio para a grande maioria de leitores ou ouvintes. Isso porque ele vai contra essa necessidade de conceitualização das coisas, essa regulamentação da vida, das atividades que exercem, da continuidade natural, ou tradicional, dos fatos.

Vazio por não estabelecer uma evolução conservadora da história de determinado homem: deixe-o pairar entre o homem idéia e o homem trabalho, deixe-o viver na dualidade entre o tornar-se ímpar e o de ser número: credito essas variações à capacidade que os humanos tiveram na distribuição, exploração e povoamento do meio em que vivem, o que ampliou a diversidade de reações, crenças e pontos em comum ou discordantes.

Vazio por não se importar na definição física ou prática do lugar. A relativização das coisas nos faz pensar no porquê de existirem medidas, tamanhos e distâncias se tudo se torna tão subjetivo e pessoal.

Vazio por confiar na barbárie como algo que nasce na essência do homem, a negação ao estranho, a retenção à diferença, e o surgimento de uma desigualdade primariamente cultural. Não acredito nos deuses, mas assim como respeito na crença coletiva de determinada comunidade ou sociedade, confio em uma devoção individual, na valorização dos princípios e na manutenção de éticas básicas, como o direito ou a educação.

Vazio por não conseguir o equilíbrio entre o hedonismo e a socialização dos prazeres e deficiências de um país tão segregador. Vazio por não ter ao certo a noção de cada simples atitude nossa, nem a preocupação da individualização dos sentimentos e sensações. Vazio por permanecer no abismo que questiona o planeta a cada segundo: o porquê de tudo isso.

Vazio por rebaixar o homem a uma representação mínima, sem sentido, sem contexto, e ao mesmo tempo crer no paradoxo com a dimensão que cada um deles e nós podemos exercer.

Vazio pelo julgamento superficial perante a tecnologia, a imaginação fantasiosa, a representação não-perfeita do natural e puro.

Vazio por não se submeter a julgamentos. Por ver arte no dadaísmo, a chamada negação da mesma, no movimento de vanguarda non-sense. E por que não, por ver arte no cubismo, a milimétrica manifestação da geometria como arte.

Vazio pelo simples fato de utopicamente repensar o pensamento, folhear livros, vasculhar rabiscos de canto de folha. E para que ao pensar no niilismo, reflita a contradição existente, e pense, e pense, e pense. Para que nesse polissíndeto de teorias mal afinadas, possa chegar à conclusão nenhuma.

Vazio por essa elipse das explicações, esse raciocínio do improvável inconseqüente.

Termino pelo começo: prepare-se para questionar tudo, mas nem sempre negar-se a pensar em nada.

sofá

tudo indicava mais uma noite regada a álcool, piadas repetidas seguidas por gargalhadas tão espontâneas quanto. mudei o caminho, desci dois pontos antes sem direito avisar o motivo ao motorista e sim, lá estava ela. linda, sorridente como sempre, como se não esperasse a minha presença, ou quem sou para esperar tamanha dedicação? esqueço-me da razão, deixe-me pensar que todos seus sorrisos são para mim, que toda a sua alegria tem nome e que a felicidade paira com mais intensidade sobre nós. a aproximação é complicada, o gelo do meu dreher já começa a sumir, enquanto me contento com um toque nas mãos ou olhar mais aguçado. esquece o mundo que está para lá da porta do quintal, vai começar o filme, deita no meu ombro e fingi dormir que cuido de ti. ei de acordar, sim, mas o sonho continua num sofá só nosso, feito uma peça de teatro sem público. já é dia e junto dele vem a hora de descer, mas o beijo caloroso nunca tarda: fito meu olhar em você até que te convenço a me abraçar de novo, agarrar esse momento único. não sou bom em falar de sentimento, algumas palavras andam em baixa, mas o dicionário não me deu resposta para esse aperto que me faz passar na distância tua, para a saudade exagerada, carnal. sábado, de volta ao mundo, com a certeza que te carregarei para sempre, um para sempre nunca tão sincero, junto a mim, como vi naquele sofá cor da gente, que tinha teu cheiro e ficou amontoado de meu amor.

tua dose de martini

a nossa espontaneidade nos impede de combinar um destino antes do anoitecer - fingimos não ter rumo, de maneira saudável. me encanta o jogo de palavras e teu riso sincero enquanto me ouve contar uma infinidade de causos e histórias com meia-graça, brincar com ironias. do mundo lá fora nos fizemos ausentes, só ouço os barulhos dos carros na avenida em meio aos goles de chopp e os cochichos de um casal da mesa de trás. quem diria, nós, distantes até a última folha do calendário, tão juntos. falamos de noitadas perdidas, de cicatrizes como forma de remeter o pretérito. agora é hora de puxar a cadeira e sentar do meu lado: pede uma bebida quente enquanto aqueço seus braços, sinto você colada em mim como naqueles filmes de final feliz. não temos hora de partida, que bom, perdemos tanto tempo em maios passados. nos resta aproveitar cada gole de alegria, cada porção de gargalhadas, e fazer valer cada momento em que sinto seus olhos refletidos nos meus. despindo meus sentimentos sobre tua pele macia, sinto o gosto de teus lábios que tanto queria sentir. a timidez foi substituída por um carinho sem limites. entrelacemos as mãos, e te convido para trocarmos sorrisos cada vez mais próximos e íntimos. vem, chega mais perto, o frio agora é da madrugada, e no sereno que paira por cima dos coqueiros da calçada, mergulho em você, feito a cereja de tua dose de martini.

cento e vinte e cinco milhas

abro os olhos com a esperança de ter você nos meus braços, como naquele cinema em que matamos aula para ficar tão juntos. no nosso filme a película se tornou mera espectadora do primeiro episódio daqueles seriados que você tanto gosta, e terá final feliz: um reencontro ímpar. lembro-me daquele teu sorriso da infância, sincero, e choro o descaso dos treze e poucos anos. cultivo a esperança de receber uma mensagem inusitada e surpreendente, um convite inesperado que soa como um 'quer viajar comigo?'. o domingo é frio, no máximo vinte nublados graus, e você quase duzentos quilômetros daqui. sem você me apóio nos jogos de futebol da televisão, no reggae do rádio ou no jornal por assinatura que me limito a folhear. mas a ansiedade não combina comigo (tento ser frio) e prefiro anestesiar sua ausência com elos passageiros de cachaças servidas em copos americanos, vinhos de cinco reais o litro, ou textos que mal você sabe que tenho escrito - nisso pouco me importo, me espelho nos escritores anônimos, e me sinto bem, próximo à você, com seu cheiro na minha camiseta nova ou com o carinho de suas mãos sobre as minhas, quase cento e vinte e cinco milhas daqui.

pra sempre

tenho saudade de nossos planos de madrugada, andando por esquinas sóbrias do outono. me faz pensar se tudo aquilo foi real, aquela piada contada sob o asfalto ou a história que rimos no equinócio de março passado. tudo leva a crer que caminhamos para um ostracismo muito bem visto, um anonimato extremamente famoso. tudo bem, continuo andando por aí querendo encontrá-la, apesar de minhas palavras repetidas. ah, palavras, sejam jogadas ao vento, sejam pronunciadas em alto e bom som, só palavras. prometo caminhar naquelas mesmas calçadas, encardidas pelos passos ritmados de muito tempo. só quero ver nós dois se olhando no recreio, me pegar te escrevendo um texto de mentira, você não é fã de meus caracteres. conto as horas, você não está comigo. o melhor remédio é folhear o velho caderno sem capa dura, aquele que te mostrei num sete de abril qualquer. não quero acreditar que do meu coração fiz refém teu. mudam as estações, escurece mais rápido, menos rápido pareço te esquecer. lembra aquele papo em que acreditávamos, no 'pra sempre', esquece. os minutos são tão diferentes, metamorfoses de críticas ambíguas e elogios recheados de eufemismo. voltar para casa não me consola, sou parte de nós, me apeguei ao seiu jeitinho tímido de quando fazemos amor no calor e sua maneira ímpar de sorrir no escuro. impossível esquecer aquela páscoa dos dezoito anos, eu correndo, feliz, criança. não foi tempo perdido, mas me sinto atrasado. perdi a hora, acordei tarde, sonho com você enquanto o vento entra pelo pedaço aberto da janela, o travesseiro aperta minha cabeça e o corpo se revira por todos os lados possíveis do colchão. por onde esteve minha cabeça enquanto o quase nada era o máximo que poderia ter. me resta digitar minhas nostalgias dos sábados de manhã, aqueles mesmo que estava acostumado a acordar com você no meu ombro, cabelos de lado, encolhida de frio. te cubro, 'pra sempre'.

Metalinguístico

Diante da folha reta
seguro minha tinha preta
e as imagens vão escorregando da minha cabeça
passando pelos ombros se tornam idéias
nos cotovelos, palavras
nos pulsos, frases embaralhadas
e dos dedos à tinta preta
mancham a folha de forma natural

Sábio

o mestre agora tem pernas trêmulas
que por debaixo das calças sociais, choram
presas nos cintos antigos, sandálias gastas
presas na rotina ímpar, falsa ignorância
por tempo, só descansam à distância.
a camisa segue lisa, guardada na cintura
os botões resistem à cada lamentação
como as cadeiras arrastadas no quintal, grita
e guarda a história do tempo perdido
e conta um conto de final entendido.
não foi comprado pelos jornais
nem vendido à televisão, às notícias de rádio
cruza calçadas guiado pelo nada
numa anti-sociedade inexplicável
numa vida inimaginável.
o passeio não é mais ao bosque
o jogo deixou de ser o do bicho
o brinquedo não é o tabuleiro comido por cupins
nem os potes de doces, nem as bicicletas coloridas...
deixa, é hora de valorizar o que restou
senta aqui, conta-me outro causo
diga-me dos anos que passou.

seco



o muro parece querer desabar sobre o mato seco desses calcanhares sem perspectiva. a grade só retarda uma erosão de todos esses sonhos que acordam cedo e caminham a cada página virada de um calendário. pés que afundam na areia de idéias improváveis, e não vêem, nem de longe, um sinal de final feliz.

primeiro do resto de meus fevereiros

foi a maior dor que já senti na vida, se é que já havia sentido algo parecido à isso. me retorcia enquanto as gotas do soro caíam em ritmo lento, as cólicas e pontadas em ritmo acelerado. chorei. tive que mijar num pote, sem força, sem cor. tive que ceder ao exame de sangue, sem força, sem cor. a médica apertava a boca da minha barriga com uma intensidade em que perdia a voz, o ar. foi a quarta pior sensação da minha vida. apêndice, o problema. passou a quinta, já é sexta, fazia tempo que não me olhava no espelho, nem conferias as horas. era fim de tarde, umas quatro e pouco. só me lembro de tirar repetidas vezes o tal do raio-x, que por ora não tinha filme. doía tanto que via meu pai segurar o choro, lamentando aquele momento. deitei na maca que me levaria a cirurgia, e num esquema já trivial para as enfermeiras, a lavagem da pele com o iodo e aí... foi a terceira pior sensação da minha vida. aquela porra me queimou de um jeito que os olhos eram só lágrimas, a coluna travada, a voz rouca e pic, a agulha da anestesia. depois do branco acordei só sábado de manhã, passava algum programa de esporte na bandeirantes, praticamente hora do almoço. a mulher de branco me deu um banho, sei lá o que foi aquilo, ela chamou de banho. a boca seca não podia tomar água, e senti um cano no meu pau, era a merda da sonda. ah, tava de fralda também. passaram algumas horas e fui pro quarto. lá o tempo passava um pouco mais rápido, mas nem tanto. família, visita de amigos, e quatro dias sem água nem comida. fedia à soro, mijava naquela sonda igualmente fedorenta. mal levantei da cama. chegou o dia de tirar a sonda, a segunda pior sensação da minha vida. imagina um caninho dentro da tua uretra, até a bexiga. agora imagina ele saindo, devagar, raspando nas paredes, doendo demais, demais, demais, demais. porra, mijo torto até hoje. veio a diarréia, o pesadelo não acabava. meus pais lavando uma bunda cheia de merda, merda sabe-se lá de onde, de sujeira, das tripas, sei lá, odeio medicina. cada duas cagadas, trocávamos de roupas, cagadas que foram cerca de dezoito em vinte e quatro horas. cada calção de futebol me fazia lembrar um grande momento. aquele azul que usei para dormir no ano novo, o preto dos domingos de sol na quadra da rua de baixo ou o vermelho, dos treinos da faculdade. a camisa velha do Palmeiras, cinza, desbotada, uma que meu pai ganhou de um amigo estadunidense ou a da liga de futebol japonês. fiquei entediado, não sei onde tinha mais bosta, no vaso ou na televisão. a sopa sem gosto, a porra da couve flor tem o mesmo cheiro do soro, ah, chega. fui pra casa, alta, falsa alta. em casa as dores continuaram, pontadas insuportáveis, e agora, duas semanas depois do ocorrido, me sinto um pouco melhor. os pontos vazam, tem um buraco tão grande que até cai minha pressão de olhar. a vida isolada é ruim, fazem uns cinco dias que não vejo uma pessoa diferente, mal leio o jornal, nem coloco as lentes de contato. o porquê de acontecerem essas coisas eu não sei, mas ando pensando nisso desde a madrugada do dia primeiro de fevereiro. a pior sensação da minha vida. a cicatriz é eterna, não sei se mais do que alguns momentos.

algo emperrado

vejo peças emperradas na minha caixa de ferramenta
lembro dos meus tênis emperrados na cômoda do quarto
lamento minha bicicleta emperrada no prego da parede
imagino a bola de capotão emperrada sob o tanque

sei que as canetas estão emperradas no porta-treco
esqueço das folhas emperradas sobre a mesa
cheiro as camisas emperradas nos cabides
ouço os discos emperrados na gaveta sob a vitrola

leio as manchetes dos jornais emperrados na garagem
como a maça tão emperrada na fruteira
toco nos brinquedos já emperrados no porão
seco a garrafa d'água emperrada no congelador

sinto meus ossos emperrados junto a pele queimada
cubro os pés emperrados em pernas trêmulas
derrubo lágrimas emperradas de um rancor passageiro
choro meu amor que acabara de emperrar

copo azul















ah, o copo azul.
copo da pinga e do refrigerante de cola.
mas copo também da alegria.
das doses de felicidade instantânea, espontânea.
na vida real só tenho copos de requeijão.
firmes, feitos para sucos consistêntes.
sem espaço para gorós experimentais.
sem lugar para elos passageiros.
as noites litorâneas ficam em nossas mentes.
ou nas fotografias, a memória em forma de papel.
segura a onda que a viagem passou.
bem vindo a vida.

fim

é fácil perceber que há saudade em tudo que é passado, que há contradições em tudo que é presente, que há dúvidas em tudo que é futuro. é difícil entender como somos vítimas das nossas próprias armadilhas. é complicado querer vencer o próprio mérito, querer enfrentar o próprio sentido. são dias e mais dias pensando em não pensar em nada. afinal, o mundo está correndo e ainda não se sabe o porquê. nem como pará-lo para descer.

próspero ano. sentimentos nômades de uma fábula sem final feliz, perspectivas míopes prevendo ao menos um jingle, um verso, uma nota. e no ápice de uma declaração ímpar: não! está oficializado o fim de meus dias.