o pedro era um cara difícil, ainda. largou os bilhetes de metrô, mas ainda mantinha o medo constante de se apaixonar a cada estação. a inquietação era abafada por um azar insuperável com as mulheres: pedro era piada famosa entre vizinhos e colegas de sala. certa vez, foi enganado de forma que acabou viajando e levando um bolo em outro estado, sem contar as inúmeras investidas em casadas de meia-idade que gargalhavam de sua cara cheia de espinhas.
até que nas vésperas de um dos carnavais mais quentes de que ele teve notícia, a sorte apareceu para pedro. ele sentia-se bem, mesmo com o mesmo cabelo, quase tapando o mesmo par de olhos claros-calejados mesmo, mesmo sem roupas novas ou barba mais bem feita - pedro tinha aversão a cremes para o rosto.
incrível como pedro, após ler um qualquer escrever fazendo amizades de bancadas de balcão, com o gole do copo gelado esperando o gole do corpo quente embassar todas as minhas vidraças, começou a crer na idéia. largava o banco pontualmente às dezesseis, pegava o sem carona e corria pro centro de são paulo. chegava lá ainda sol e sempre se arrependia, muito calor, bom para a bebida gelada, ruim para o suor junto à bancada.
numa sexta dessas, parou na frei caneca e desceu a augusta, passou pelas padarias cheias de pessoas tão igualmente diferentes e riu daquela uniformidade ímpar. entrou num clube qualquer (não confunda com um prostíbulo, famosos naquela região). conheceu uma menina de sobrenome famoso. meio rock alternativo, morena de pele branca e macia.
- olá.
- oi, como vai?
- sempre falta companhia pras pessoas que aguardam na fila do banheiro...
- pois é. [pausa sem pauta]
- vamos pegar uma cerveja...
a conversa durou ainda horas, o pedro não contou com detalhes. talvez ele ainda não esteja a vontade para falar disso comigo, afinal, como disse, mulher nunca foi o forte do pedrão. mas incrível, o cara parou de reclamar do banco e começou a se dar bem. com a Ana, o papo da fila pra mijar rendeu uma pegada das boas num canto da música eletrônica, drum n'bass num volume que ele reclamou por toda a fila do caixa de segunda-feira.
- porra, ressaca de segunda-feira pós-festas é foda, banco lotado do caralho.
falou por um bom tempo dela. sai com ela até hoje, tem um carinho que nunca vi o pedrão ter por uma fêmea. sim, ele sempre tratou o sexo oposto assim, na maré ruim. até que lembrou de uma sexta anterior. entrou, com três camaradas e mais eu, num barzinho legal daquelas bandas. tocou um samba antigo, como sempre, pedro ficou pra trás na corrida pelas mulheres de uma noite só. mas aí ele olhou, ela olhou, mexeu (- caralho, to aprendendo!) e rolou uma conversa, de início ainda mais louco que a anterior. meio jazz, de jeito suave e dançante.
- pedro.
- liana.
- curte o que?
- quem?
- vamos pegar uma cerveja...
Disse ter passado uns quarenta minutos explicando vida e obra de algum artista, ela ouvindo com atenção. tinha um olhar de menina, dizia querer ser dentista, fazer intercâmbio. como um eduardo e mônica, pedro gostava de novela e jogava futebol de botão com seu avô... liana, mesmo sendo linda, acabou não vingando, no fim parece que nem de dentista ela gostava.
- porra, quando eu penso que vai dar certo, a mina deu o telefone e sumiu...
pensamos que tinha acabado, e lá vinha o pedro com história. agora disse que tava numa festa carioca com uns amigos da faculdade, e tentou, com o mesmo papinho, testar a sorte. meio ska, punk, rápida e intensa.
- já vai?
- tava esperando tu me chamar.
- vamos pegar uma cerveja...
caralho, que fase em pedro, porra. subiu as escadas com a piranha, foi pro canto escuro, ele bêbado, ela mais ainda, e que foi aquilo.
- porra, se eu contar vocês não acreditam...
- fala, filho da puta, tá começando agora e quer botar banca...
ela abriu o zíper, ele tirou o cinto. (puta que pariu, aqui!?) Pedro só viu quando os carinhos já eram mais intensos, o tesão incrível, a música não chegava mais nos ouvidos com nitidez, os olhos brancos, as pessoas todas estáticas, ele, ela, ele, ela.
- foi bom te conhecer.
- prazer é meu, srta...
- larissa.
- feliz ano novo, larissa.
- pra ti também.
puta que pariu, a galera foi a loucura, o pedro tava representando naquela noite. pediu mais duas heineken e minha porção favorita de amendoins, a mista - verdes, laranjas e tradicionais.
- lembram daquela do trampo...
risadas e mais risadas. tá, ele não tinha porque mentir, mas do nada, assim, em tão pouco tempo (lembro de ter visto o pedro pouco antes do natal) ele teria tantas histórias, e boas, assim? começou contar que marcou de tomar uma gelada numa noite dessas. Ela, linda, encantadora. meio beatles, meio bossa nova.
- que noite linda.
- gostou?
- muito né.
- gabriela.
- pedro.
realmente ele tinha mudado, impressionante a capacidade que estava de lidar com as situações. tinha se tornado um ídolo da galera, mais três geladas, quando, mais pra lá que pra mesa que sentávamos, remeteu ao amor do colégio.
- ah, a amanda...
tinha saído com ela dias atrás, como naquelas fugas que eles faziam para ouvir reggae, fumar maconha e tomar vinho, muito vinho. diz ser sempre tão bom, tão espontâneo, saudável. meio bob marley, harmoniosa e tão próxima.
- te amo.
- também te amo.
boquiabertos. era quase carnaval e realmente, mais três geladas, ele não podia chegar pro pedro. era bom ver o velho amigo assim, feliz, contente, mas algo parecia estranho. o pedro das histórias não era o pedro das histórias, aquele cara quase-sem-espinhas que largou o estágio em comunicação pro emprego no banco. ganhando mais e se fudendo mais, mas porra, ele é batalhador, gente boa. tudo bem que mulher é fase, como já dizia a velha canção, mas ele tinha encanado com isso, não sei, mudou ele de alguma forma. mais três geladas, gritaram, pedi meu duelo, chamei-o num canto para dividir o amendoim e comecei a entender o que havia acontecido.
- meu carro quebrou.
continuava a ter medo de se apaixonar a cada estação.